Metade.
As vezes eu a vejo com um sorriso triste e um olhar de reprovação. A pergunto o porquê de perdoar. E pergunto o porquê de tanta verdade e sinceridade, afinal, porque tanta insistência? As pessoas já não acreditam que depois de tudo ela continua de pé. Eu gostaria muito de saber pra onde se vai depois do improvável. Custo a entender tudo que se pode passar em nome de um amor que nunca se provou forte. Me dói ver o quão uma pessoa chega ao reafirmar tudo aquilo que um dia a fez sofrer. Ela, olhou fundo nos olhos com aquela alma sincera apesar de cansada e sorrindo com seus olhos tristes. O espelho refletiu e disse que há de ser muito mulher pra não ter medo das consequências de lutar por aquilo que quer. Tem que quebrar a cara e levantar a cabeça pra ninguém ter dó de você. E deixar sem graça com um sorriso do fundo da alma aqueles que ousarem sentir pena. É preciso não ter pena de você mesma. É preciso não querer a pena de ninguém. É preciso não precisar de pena. O maior lance é vencer tudo isso, ignorando as fantasias e promessas que nunca serão cumpridas, lutando contra os ‘para sempre’ para conseguir recomeçar. Nunca deixe de acreditar no amor, porque até quando ele finge que vai embora, volta como o próprio. É preciso pensar a possibilidade de ser uma laranja inteira. A metade ninguém quer e panela sem tampa serve só pra ferver água. Porque metade é só metade e nunca vai conseguir ser um inteiro. Um relacionamento inteiro, um amor inteiro e inteiramente felicidade. Porque diabos alguém aceitaria esse papo de amor da sua vida com metade do prêmio? Entenda: metade nunca vai ser o suficiente
É perda de tempo esperar que alguém mude, afinal, é preciso que outro alguém chegue e consiga mudar todo um mundo. Entenda que essa pessoa não foi você, tá? Não há porque você sofrer tanto assim. Mesmo porque, coração, você dedicou todas as suas batidas àquele olhar. Quando ele tava longe você se sentiu pequeno demais para sentir qualquer outra emoção e quando ele foi embora você decidiu que iria com ele, deixando um buraco enorme no meu peito, voltando só pra chorar a falta que tanto ele te faz. A gente sabe que muitas vezes você quis parar de bater e muitas vezes você veio a boca querendo falar com ele de madrugada, oferecendo uma segunda chance que quase nunca precisou ser implorada por parte dele. E eu sei, coração, você tá a favor dele e contra mim. Eu só queria que você soubesse que eu fiz de tudo para não esquecê-lo. Mas escuta aqui, é loucura sofrer por alguém só para estar mais próximo da pessoa e continuar tendo qualquer sentimento quando se cansa demais de amar.
Há quem você tá querendo se enganar?
Ultimamente as coisas têm sido diferentes. O sol tem batido mais vezes na minha janela e nos dias escuros sempre tem alguém pra me dar a mão e acender a luz. O tempo não para mais só para me magoar e a única coisa que às vezes me abandona é a minha voz quando teimo em curtir demais a vida. O meu sol tem nascido mais cedo e eu faço planos para o fim de semana. A faculdade tem ficado cada vez mais interessante e o trabalho tem sido compensado. Eu não te vejo mais por todos os cantos e suas ligações tem se tornado cada vez mais indiferentes e, quase imperceptivelmente, mais frequentes. Tudo tá funcionando com uma facilidade e passando com o tempo. Nós sabemos, coração, você queria se importar. Mas tente entender agora, você não se importa. Ah não, não gostou? Não tem intenção nenhuma de continuar comigo nessa, porque não quer me ver assim? Você acha, realmente, depois de tudo, que eu não posso ser feliz sozinha? Não vai embora! O quê? Me acha uma tola por querer curtir a vida? Você ainda acha que é ele? Como assim você vai atrás dele? Você não vai me deixar aqui desse jeito, né? Coração? Coração, onde você tá? Ah, já foi? Mas que pena!
Maria Fernanda Bernal
Não preciso mentir. Eu nunca nem sequer pensei em mentir para você. Eu sinto mesmo a sua falta. Sinto falta da tua alegria de sempre e do medo que eu tinha de te perder toda vez que você se despedia distraído. Temos que crescer e já não somos mais os mesmos. Os dias passam e seguimos com mais futilidades para podermos guardar nossas verdades. Mas ainda podemos sonhar com o quanto poderíamos ser felizes se não quiséssemos ser tão felizes. Vamos continuar nos perdendo para provar pro nosso orgulho e pra nossa vontade de viver que conseguimos sem esse amor. Lembramos a nossa eterna despedida fingindo não saber que tá longe de ser a última. A tua altura já parece pequena a meus olhos mais atentos e todo esse teu amor próprio me alerta o teu egoísmo. As lembranças se tornam cada vez mais distantes e não consigo mais me agarrar à última parte que me resta de amor. É preciso saber que o seu papel coadjuvante era o de me ensinar que às vezes o futuro nos guarda grandes supresas e nada mais do que possamos fazer pode nos trazer de volta agora. Não consigo mais perdoar. No teu teatro fui a mocinha, vilã e narradora. Você foi só mais um telespectador que decidiu pausar e deixar o último ato para depois. Para não perder o hábito fechei as cortinas e sozinha encerrei o meu show. É que não era você. Por mais que eu fizesse tudo e atuasse por todos os personagens, eu escolhi o ator errado. Por mais que eu corresse aturdida para bater palmas solitárias na plateia e ligasse repetitivamente para votar no final feliz, nunca foi você. Acho que agora eu vou ficar bem. O tempo todo era eu, todo esse tempo era eu. Vou ficar bem.
Maria Fernanda Bernal
Era Valentines day e a praia tava lotada de gente. Nunca vi a praia mais colorida de guarda sóis e o mar tão azul. Havia um milhão de casais apaixonados que aproveitavam o mar e o sol. E eu querendo ir pra minha casa e esquecer o quanto esses casais felizes me irritavam. Mas o mar não tem nada de azul, disse o homem que não suportava a cor azul. E não é que ele tava mesmo empenhado em me convencer que o mar era verde? Ele tá mais é para, no máximo, um verde água. E que tudo que era mais verde fazia mais sentido. E seus olhos azuis me encantava, verdes. Verdes e ponto final. VERDES MESMO! Em um esbarrão ou outro acabamos nos perdendo por aí. Era um desses amores que nunca dão em nada. Mas ele, bom de convencer as pessoas das coisas, resolveu me convencer de que valeria a pena. Mesmo porque ele não queria ficar comigo só naquele dia; ele queria segunda, terça, quarta, quinta e sexta, para sempre, para sempre ao meu lado. E sorrimos como se fosse verdade, sorrimos porque às vezes é bom acreditar em algo que continua. E passamos a acreditar porque essas tais segundas à segundas começavam a aparecer em nossas vidas como se algum anjo tivesse dito amém. E começou a ficar sério, eu já estava no meio de um jantar em família. E foi então que aquela coisa que me faz ter pavor de sentimentos e que sempre me leva a um sentimento apareceu. Eu surtei. A minha vidinha que até então estava tão sem graça e tão cheia de cinza havia se tornado um teatro de felicidade. Uma novela de fatos reais. Então eu surtei. Porque eu não posso com isso. Na verdade eu não posso, eu não posso com nada que possa me atingir. E um amor agora teria sido fatal. Mais uma decepção me tornaria estéril de coração. Era tanto vinho e queijo e coisa e tal, daquele tipo quando se apresenta uma namorada a família. Eu precisava de ar. Como uma grande ainda não-namorada, eu me retirei pedindo a licença mais educada que alguém poderia pedir em uma ocasião como essas e sai correndo. Eu vou tomar um ar porque eu não me importo. Eu vou tomar um ar e fuçar nas suas coisas pra ver o que você tem guardado por aí. Eu vou subir no seu quarto e mexer nas suas gavetas porque eu quero saber, mas no fundo não me importo. Eu não me importo com esses doces sob encomenda e vinho e expectativa que todos criaram para conhecer a menininha que ia se submeter a mais um desses namoros casuais. Eu não me importo, a verdade é que eu não me importo. E eu sai correndo o mais rápido que eu podia parando em um choque que poderia ter iluminado mil sorrisos se não tivesse dado luz a minhas desesperanças. Chegando no quarto dele, tudo azul. Azul? é azul. Paredes azuis, lençol azul, travesseiro azul. E de repente tudo ficou claro, claro como o céu que é azul, mas não é sempre azul. E ficou tudo cinza, o meu mundo voltou a ser cinza. Um cinza estranho que não seria nem ao menos digno de céu em tempo fechado. A verdade é que eu me importo. Eu me importo. O amor é azul.
Maria Fernanda Bernal
Lá está você, no meu sofá estúpido com seu sorriso desconcertado. Como você chegou lá eu não sei e porque guardou a chave do meu apartamento também não importa mais. Nunca importou.
Como se nenhum tempo ousasse estragar a essência dos teus olhos, o meu coração te (re)conheceu. Tem pessoas que se sabem, se leem, tem quem se sente. Ele era o meu tipo de gente, que ri de quem tenta se explicar e não precisa de mentiras. E eu vou te aceitar com o seu sorriso torto e vou te querer com o seu jeito bobo de demonstrar o quanto somos felizes juntos. Eu te aceito como você é, sabendo que você não tem destino e sabendo também que bem antes do amor você vai embora. Mais uma vez você cospe na minha cara que não existe essa tal eternidade. É de enlouquecer saber que você vive por aí de mentiras. Mas elas não se importam com o que você sente, meu amor, elas não vão querer saber como você acordou depois de tudo no dia seguinte e se você se sente bem com tudo isso. Elas querem a sua altura, o seu abraço quente e o seu sorriso fácil. Quando você começar a falar, querido, elas irão embora e você vai me procurar. Como sempre. Porque eu te entendo, eu te sei. Na hora de viver de verdade, no antes do enlouquecer, você vai estar no meu sofá esperando a verdade, querendo a verdade, sendo de verdade. A minha verdade, a mulher de verdade. A verdade e mulher que você não consegue esquecer. Vai lá brincar de viver, campeão, vai dar risada com os seus amigos e fingir ser quem você não é, afinal é esse o sentido de felicidade, não é ? E é só mais um capítulo do meu não-amor que é escrito na minha página de lembranças cansadas. A sua voz vai se perdendo, a sua respiração vai sumindo e já não escuto mais o seu coração que grita e implora por um pouco de amor de verdade. Eu sempre fui forte. Viro as costas e te deixo sozinho, finjo que não ligo; um sorriso disfarça e lá dentro meu mundo desaba. Mais uma vez!
Maria Fernanda Bernal